Salas de recursos multifuncionais e Atendimento Educacional Especializado na escola comum

Uma análise crítica de usos, limites e possibilidades

Autores

  • Aline Muniz dos Santos Soares Corporacion Universitaria de Humanidades e Ciencias Sociales de Chile

DOI:

https://doi.org/10.56069/2676-0428.2026.773

Palavras-chave:

Atendimento Educacional Especializado, Educação Inclusiva

Resumo

O debate sobre o Atendimento Educacional Especializado nas salas de recursos multifuncionais ganhou centralidade na política educacional brasileira à medida que a educação inclusiva deixou de se orientar por uma lógica de segregação e passou a se vincular ao direito à escolarização na classe comum. Nesse cenário, o AEE passou a ser definido como serviço complementar e suplementar, voltado à eliminação de barreiras e ao fortalecimento das condições de participação e aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial. Todavia, a consolidação normativa do serviço não eliminou tensões relativas à sua organização, à formação docente, à articulação com o currículo comum e ao risco de a sala de recursos assumir funções substitutivas. O artigo tem como objetivo geral analisar criticamente o uso das salas de recursos AEE na escola comum, examinando suas bases históricas e legais, seus impasses no cotidiano institucional e suas possibilidades pedagógicas. Justifica-se a investigação porque a ampliação dessas salas, embora relevante, nem sempre produziu práticas coerentes com o princípio da inclusão escolar. A pergunta que orienta o estudo pode ser assim formulada: em que medida o uso das salas de recursos AEE tem contribuído para a inclusão, a participação e a aprendizagem dos estudantes, e em que circunstâncias tem reiterado formas sutis de apartação pedagógica? Metodologicamente, desenvolve-se pesquisa qualitativa de caráter bibliográfico, organizada como revisão narrativa da literatura. Os resultados indicam que o AEE alcança maior consistência quando se articula ao projeto pedagógico da escola, ao planejamento colaborativo e à mediação docente, ao passo que perde potência quando se converte em espaço paralelo, padronizado ou centrado apenas em encaminhamentos técnicos. Conclui-se que a crítica ao uso das salas de recursos não implica sua recusa, mas a defesa de uma reorganização que subordine o serviço ao direito de aprender na escola comum.

Biografia do Autor

Aline Muniz dos Santos Soares, Corporacion Universitaria de Humanidades e Ciencias Sociales de Chile

Mestrado em Ciências da Educação

Corporacion Universitaria de Humanidades e Ciencias Sociales de Chile

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Publicado

2026-03-20

Como Citar

SOARES, A. M. dos S. Salas de recursos multifuncionais e Atendimento Educacional Especializado na escola comum: Uma análise crítica de usos, limites e possibilidades. Revista Científica FESA, [S. l.], v. 3, n. 36, p. 56–73, 2026. DOI: 10.56069/2676-0428.2026.773. Disponível em: https://revistafesa.com/index.php/fesa/article/view/773. Acesso em: 21 mar. 2026.